quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Natal é tempo de se contar estórias

“(...) E saíram eles, pelas solidões dos desertos, montados em seus camelos, atraídos pela luz de uma estrela (...)”

Dizem que eram reis. Não eram. Um rei que abandonasse o reino e saísse a andar pelos caminhos do mundo seguindo a luz de uma estrela seria deposto pelos generais: havia enlouquecido. Não, não eram reis. As Sagradas Escrituras dizem que eram magos. O dicionário Webster me informou que “mago” designava, originalmente, alguém “pertencente a uma casta de pessoas educadas e eruditas na antiga Pérsia”. Alguém que vivia para estudar, para saber. Próximo a um filósofo. Os magos dessa estória consultavam os astros no céu para compreender o caminho dos homens na terra. Eram astrólogos. Para a Astrologia, os céus são um espelho onde os mistérios da terra parecem resolvidos.

Pois esses magos, examinando os céus, descobriram uma estrela brilhante como nenhuma outra. Ficaram fascinados com seu brilho. E essa estrela lhes contou que ela, desde tempos imemoriais, estivera procurando a mesma coisa que eles procuravam. Seus raios haviam varrido o universo desde o seu início até o seu fim, na busca daquilo que dá sentido ao existir. Inutilmente. Mas, de repente, quando seus raios acidentalmente incidiram sobre esse planeta insignificante chamado Terra, encontraram um brilho que não haviam encontrado em lugar algum. Ela compreendeu, então, que aquilo que ela havia procurado nos céus não se encontrava nos céus, entre as estrelas. Se encontrava na Terra. A estrela disse então aos magos que deixassem de olhar para ela.

Que olhassem antes para o lugar, na Terra, que sua luz iluminava.

Foi assim que a sua longa jornada começou, seguindo o caminho que a luz da estrela indicava. E, ao final de sua longa peregrinação, chegaram ao lugar procurado. Banhado pela suave luz azul da estrela, em meio a vacas, jumentos e palha, se encontrava um nenezinho. Eles, então, foram iluminados. Não pela luz da estrela. Mas pela luz da criança. Perceberam que sua busca havia chegado ao fim. Aquilo que os adultos esqueceram e que a sabedoria busca - as crianças sabem. Ser sábio é ser criança. O unvierso é um berço onde dorme uma criança.

E desde aquele dia eles deixaram de olhar para as estrelas e passaram a olhar para as crianças.


Rubem Alves, educador.
Site: http://www.rubemalves.com.br

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